O documento que pode explicar como Flávio Bolsonaro escolheu seu vice
Um requerimento ignorado pela CPMI do INSS é uma das chaves para entender a ascensão meteórica de Alfredo Gaspar.
Quando o senador Flávio Bolsonaro anunciou, nesta quarta-feira (5), o deputado Alfredo Gaspar, do PL de Alagoas, como candidato a vice-presidente, a escolha foi apresentada como um aceno ao eleitorado da segurança pública e ao discurso de combate à corrupção — especialmente, pela atuação de Gaspar na CPMI do INSS.
Na comissão parlamentar, Gaspar conseguiu tornar Lulinha, filho do presidente Lula, um dos protagonistas do escândalo de desvio das aposentadorias. Mas há outro aspecto da atuação de Gaspar na CPMI do INSS que, na minha percepção, ajuda a compreender por que ele se tornou um dos nomes de maior confiança do senador.
O fato é que, sob sua condução, uma das linhas de investigação mais delicadas para o entorno de Flávio Bolsonaro desapareceu. Ela estava descrita em um requerimento apresentado por um deputado governista, Rogério Correa, do PT de Minas Gerais, em fevereiro deste ano. O documento, no entanto, jamais foi apreciado pela CPMI.
A peça pedia a convocação de Letícia Caetano dos Reis, administradora do escritório de advocacia de Flávio Bolsonaro, e reconstruía uma cadeia de relações envolvendo o advogado Willer Tomaz, alvo de busca e apreensão da Polícia Federal na Operação Sem Desconto nesta semana. Se você não sabe quem é Willer Tomaz, falei sobre ele neste vídeo que publiquei no Instagram. Spoiler: tenho matéria sobre ele vindo aí…
Vou me debruçar sobre os detalhes deste requerimento mais à frente neste texto. Mas, antes, é preciso resgatar uma cronologia ajuda a entender o contexto político.
A cronologia
O documento foi protocolado por Rogério Correa em 3 de fevereiro de 2026. Pouco mais de um mês depois, em 25 de março, Alfredo Gaspar deixou o União Brasil para se filiar ao PL.
O ato de filiação de Gaspar ao PL ocorreu em um evento em Brasília ao lado de Flávio Bolsonaro, que afirmou tê-lo convidado pessoalmente para integrar o partido e disse que o deputado atendia a uma “convocação” para reorganizar a legenda em Alagoas.
Com isso, Gaspar assumiu a presidência estadual do PL e fortaleceu seu projeto de disputar uma vaga no Senado. Agora, poucos meses depois, foi escolhido por Flávio para ocupar a vice na chapa presidencial.
O documento
Voltando ao requerimento em questão, é preciso dizer que aquela não era uma suspeita lançada ao acaso – como acontece, muitas vezes, em comissões parlamentares que são, por natureza, iminentemente políticas. Boa parte das informações daquele documento havia sido revelada quatro anos em uma importante reportagem publicada pela brilhante jornalista Alice Maciel, da Agência Pública, hoje no ICL.
Foi ela quem descobriu que Letícia Caetano dos Reis administrava o escritório de Flávio instalado na mansão do senador em Brasília. E foi a ela que Letícia afirmou ter chegado ao cargo por indicação de Willer Tomaz. Essa informação foi reproduzida no requerimento da CPMI como peça de sustentação para justificar a convocação de Letícia.
O documento assinado por Correa adicionava três detalhes fundamentais à história:
que Alexandre Caetano dos Reis, irmão de Letícia, aparecia no relatório da Polícia Federal como sócio de Antonio Carlos Camilo Antunes, o Careca do INSS, em uma offshore investigada;
que o advogado Willer Tomaz, amigo de Flávio Bolsonaro, havia atuado como advogado de Alexandre Caetano dos Reis;
e que a própria PF registrava movimentações financeiras envolvendo Willer Tomaz e personagens ligados ao esquema.
Clique aqui para ler a íntegra do documento.
Apesar disso, essa frente jamais se transformou em prioridade da CPMI. Enquanto a comissão concentrou seus esforços em produzir desgaste para o governo Lula — especialmente por meio das investigações envolvendo Lulinha — o eixo que aproximava o escândalo do entorno de Flávio Bolsonaro perdeu espaço.
Não há evidência de que Gaspar tenha impedido deliberadamente o avanço dessa linha de investigação. Mas há um dado objetivo: o requerimento existiu, os elementos estavam formalmente apresentados à comissão e eles não produziram os mesmos desdobramentos que outras frentes da CPMI.
A verdade é que, mais do que um parlamentar combativo contra o governo, ele entregou a Flávio Bolsonaro uma condução da CPMI que concentrou o desgaste sobre adversários políticos e deixou em segundo plano uma investigação que atingia um dos aliados mais próximos do senador.
Agora, com Willer Tomaz novamente no centro do noticiário após a operação da Polícia Federal deflagrada na última terça-feira (4), aquele requerimento de fevereiro voltou a chamar minha atenção. Não pelo que produziu. Mas justamente pelo que deixou de produzir.
Um último pedido…
Se você acredita nesse projeto, considere assinar, compartilhar esta edição com amigos e recomendar nas redes sociais. É esse apoio que permitirá que o trabalho continue. Estou feliz poruqe já virei um “best-seller” do Substack e ganhei até um selinho da plataforma, mas ainda estou muito distante da meta que fará este projeto possível. Nos próximos dias, haverá conteúdo exclusivo para assinantes (e está bem legal!).
Obrigado por ler e até a próxima.



Super útil o resgate dessa blindagem feita pelo Gaspar ao Flávio. Tomara que a operação dessa semana chegue até todos os que foram poupados na CPMI!