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Indicado de Trump ao Brasil advogou para emissora que espalhou desinformação eleitoral

Declaração financeira de Daniel Perez indica pagamentos de empresas como a Newsmax, que difundiu desinformação sobre a eleição dos EUA, e o Airbnb, hoje no centro de disputas regulatórias no Brasil.

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Paulo Motoryn
ago 05, 2026
Cross-post feito por Noites Húngaras
"Este é o homem que os EUA querem como embaixador de Trump no Brasil: um advogado lobista ligado a interesses privados, sem nenhuma relação com a diplomacia de carreira. Escreve Paulo Motoryn em sua nova e cintilante newsletter: "Entre os clientes privados de Perez está a Newsmax, canal de televisão ultraconservador que se tornou um dos principais difusores das falsas alegações de fraude eleitoral após a derrota de Donald Trump nas eleições presidenciais de 2020. A emissora foi processada pela Smartmatic, empresa fornecedora de tecnologia eleitoral, que alegou ter sido falsamente acusada de manipular a votação americana. Em 2025, a Newsmax concordou em pagar US$ 67 milhões para encerrar o caso." Leiam o texto completo e assinem a newsletter do Motoryn."
- Leandro Demori

Eu imagino que você tenha lido que, nesta terça-feira (4), o governo Donald Trump revogou o visto da embaixadora brasileira nos Estados Unidos, Maria Luiza Ribeiro Viotti. Segundo a imprensa, a medida ocorreu em resposta à demora do governo brasileiro em conceder o agrément — autorização diplomática necessária para a nomeação de embaixadores — a Daniel Perez, escolhido pela Casa Branca para comandar a Embaixada dos EUA em Brasília. É, sem dúvida, um dos episódios mais preocupantes da escalada de tensão entre os dois países às vésperas das eleições presidenciais brasileiras.

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Poucas horas após a divulgação da revogação do visto, o jornalista João Paulo Charleaux, que tem ótimo trânsito no Itamaraty e acesso a fontes diplomáticas extremamente graduadas, escreveu no UOL que Brasil fez “corpo mole” para aprovar a indicação de Daniel Perez porque o nome dele foi anunciado por Trump antes das consultas diplomáticas de praxe. Não duvido de sua apuração. Pelo contrário. Mas, depois que li sua reportagem, fiquei curioso para entender, em detalhes, quem é o homem escolhido para representar os Estados Unidos no Brasil.

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João Paulo Charleaux@jpcharleaux
Há muita informação de bastidor circulando sobre o mau momento das relações Brasil-EUA. Compartilho uma: Brasil fez "corpo mole" para aprovar a indicação de Daniel Perez pois o nome dele foi publicizado antes das consultas de praxe. A resposta foi mais violenta do que se pensava.
10:00 PM · Aug 4, 2026 · 10.1K Visualizações

5 Respostas · 3 Reposts · 148 Likes

Em algumas horas de pesquisa, descobri informações que jamais circularam na imprensa brasileira, apesar de amplamente reportadas nos EUA. Pela urgência do tema, mudei meu plano original e escolhi esta brevíssima reportagem para inaugurar a newsletter Noites Húngaras. Faço isso porque está cada vez mais evidente que a eleição presidencial deste ano não é uma disputa entre o presidente Lula e seu principal oponente, o senador Flávio Bolsonaro. Mas, sim, entre Brasil e Estados Unidos. Portanto… Vamos aos fatos.

Quem é (e a quem serve) Daniel Perez?

É verdade que uma busca rápida no Google mostra que não faltam textos com o título “Quem é Daniel Perez” em sites do Brasil. No entanto, quase todos eles se limitam a reproduzir informações biográficas básicas sobre o presidente da Câmara dos Representantes da Flórida e a observar que sua indicação para a embaixada foge ao perfil tradicional de um diplomata. Pouco, porém, é dito sobre sua atuação como advogado, seus clientes privados ou os interesses econômicos e políticos que cercaram sua carreira — justamente os aspectos mais relevantes.

Advogado e uma das principais lideranças republicanas do estado, Perez conciliou durante anos a presidência de uma das Casas Legislativas mais importantes dos Estados Unidos com uma intensa atividade na advocacia privada. Segundo uma declaração financeira apresentada durante seu processo de indicação ao cargo no Brasil, Perez recebeu cerca de US$ 1,1 milhão por sua atividade privada no último ano. Entre os clientes listados no documento, estão empresas envolvidas em temas politicamente sensíveis tanto nos Estados Unidos quanto no Brasil, como a emissora ultraconservadora Newsmax e a plataforma Airbnb.

O formulário identifica todas as empresas que pagaram mais de US$ 5 mil ao advogado nos dois anos anteriores à nomeação, mas não informa quais serviços jurídicos foram prestados nem se a atuação estava relacionada a assuntos perante o governo da Flórida. Em resposta à imprensa norte-americana, Perez afirmou que sua atividade profissional esteve restrita a transações entre empresas privadas e a assuntos fora do estado da Flórida.

Cliente espalhou mentiras sobre a eleição

Entre os clientes privados de Perez está a Newsmax, canal de televisão ultraconservador que se tornou um dos principais difusores das falsas alegações de fraude eleitoral após a derrota de Donald Trump nas eleições presidenciais de 2020. A emissora foi processada pela Smartmatic, empresa fornecedora de tecnologia eleitoral, que alegou ter sido falsamente acusada de manipular a votação americana. Em 2025, a Newsmax concordou em pagar US$ 67 milhões para encerrar o caso.

A declaração financeira não informa se Perez participou de qualquer caso relacionado ao litígio ou às alegações sobre a eleição. O único dado conhecido é que a empresa figurava entre seus clientes privados.

AirBnB enfrenta desafios no Brasil

Outro nome listado no documento é o Airbnb, empresa que tem interesses bilionários em jogo no Brasil. A plataforma acompanha diretamente discussões regulatórias relevantes no Brasil. Em maio deste ano, a Segunda Seção do Superior Tribunal de Justiça, o STJ, decidiu que a exploração econômica de imóveis por meio de plataformas digitais pode depender da aprovação de dois terços dos condôminos quando houver alteração da destinação residencial do edifício.

O Airbnb participou do julgamento como terceiro interessado, defendendo que a locação por temporada não deve ser equiparada à atividade hoteleira. Além desse julgamento, seguem em discussão no país propostas envolvendo tributação, regras para aluguel de curta duração e regulamentação das plataformas digitais, temas com impacto direto sobre o modelo de negócios da empresa.

Política como balcão de negócios

A declaração financeira também mostra que a maior parte da renda anual de Perez vinha da advocacia privada. Aproximadamente três quartos dos rendimentos declarados tiveram origem no RHF Law Firm, escritório especializado em litígios empresariais, direito eleitoral, ética pública e compras governamentais. Perez também declarou remuneração como advogado da Doctors HealthCare Plans, operadora privada especializada em planos de saúde.

Seu salário como presidente da Câmara da Flórida representou menos de 4% da renda anual declarada. Como parte do processo de confirmação para a embaixada, Perez assinou um compromisso ético informando que deixará o RHF Law Firm, encerrará a representação de clientes privados e se comprometerá a não participar, por pelo menos um ano, de decisões diplomáticas diretamente relacionadas a antigos clientes.

Doadores ligados a empresas com atuação no Brasil

Registros públicos de financiamento eleitoral que consultei mostram que Perez recebeu contribuições de grandes empresas e entidades empresariais americanas durante sua carreira política.

Entre os principais financiadores estão a Comcast, gigante dos setores de telecomunicações e mídia; a Disney, conglomerado de entretenimento e dona da ESPN; a Duke Energy, uma das maiores companhias de energia dos Estados Unidos; a Cemex, multinacional da indústria de cimento e materiais de construção; e a United States Sugar Corporation, uma das maiores produtoras de açúcar do país.

Embora não haja evidências públicas de que essas empresas tenham sido clientes de Perez ou do RHF Law Firm, parte delas possui operações relevantes ou interesses econômicos no Brasil, especialmente nos setores de mídia, energia, infraestrutura e entretenimento.

Os representantes de Washington em Brasília

Filho de imigrantes cubanos e eleito pela primeira vez para a Câmara da Flórida em 2017, Perez construiu sua carreira como uma liderança republicana tradicional, distante do perfil diplomático normalmente associado ao cargo que deverá ocupar. Não há nenhum registro público de experiência profissional ligada ao Brasil ou à diplomacia. Durante o processo de indicação, em audiência no Senado, evitou responder ao Miami Herald se fala português.

Há poucos meses, ainda no Intercept Brasil, escrevi sobre Darren Beattie, o ideólogo trumpista escolhido para supervisionar a política dos Estados Unidos em relação ao Brasil. Naquele momento, o foco do que escrevi era a evidente afinidade ideológica entre setores da administração Trump e a extrema direita brasileira. O caso de Daniel Perez acrescenta uma nova camada a essa história.

Se Beattie simboliza a guerra cultural e política, Perez representa também a dimensão econômica dessa estratégia. Sua trajetória mostra que o homem escolhido para chefiar a Embaixada em Brasília não chega apenas cercado por vínculos com o trumpismo, mas também por relações profissionais com empresas que possuem interesses concretos em temas hoje debatidos no Brasil.

Talvez seja justamente aí que esteja o principal risco desta eleição. A questão não é apenas a possibilidade de um governo brasileiro politicamente alinhado a Washington. O problema é a perspectiva de um governo economicamente arreganhado aos interesses de Washington. Um governo pronto para abrir mão de sua autonomia para acomodar interesses econômicos de uma potência estrangeira.

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Um último pedido…

Esta edição foi uma exceção. Diante da gravidade dos acontecimentos, decidi adiar a investigação que inauguraria a newsletter Noites Húngaras para publicar este texto. As próximas reportagens serão diferentes: fruto de semanas ou meses de apuração, documentos inéditos e cruzamento de informações. É esse jornalismo que quero construir aqui.

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